a
rabo-de-peixe: O Amphicar.Na
água
O Aligator não tinha um leme propriamente dito, as rodas dianteiras faziam
esse papel, porém dado ao esterçamento limitado, as curvas dentro
da água deveriam ser bem planejadas, em um local com pouco espaço
manobras à ré se faziam necessárias. As rodas traseiras,
em contrapartida, serviam de quilhas, e ambas as rodas com seus respectivos
pneus serviam de flutuadores, dando equilíbrio ao carro. Para tal, os
pneus precisavam estar calibrados com alta pressão.
Para entrar na água o Aligátor não poderia simplesmente
saltar de uma encosta, por se tratar de um veículo urbano, seus trejeitos
eram um tanto mais civilizados, para tal manobra precisava de uma rampa com
uma leve inclinação. Ao tocar o rodado dianteiro na água,
seus ocupantes tinham a nítida impressão de que o pobre carro
iria afundar como uma pedra, porém conforme se impunha, a dianteira levantava
e o anfíbio boiava como um bote. E falando em barco, após estar
totalmente na água, o condutor, ao invés de motorista se transformava
em um autêntico marinheiro acionando as hélices em uma pequena
alavanca localizada entre os bancos ao mesmo tempo em que desligava a tração
das rodas do carro, inúteis nessa hora, não desperdiçando
combustível.
O Amphicar
Em 1960, ano seguinte à fabricação do primeiro protótipo,
o Aligator passou a ser fabricado pela DWM da Alemanha, um grupo empresarial
formado por capital alemão e norte americano. O Anfíbio foi então
rebatizado de Amphicar e apresentado nos EUA na Exposição Internacional
de Nova York.
O carro, agora com novo nome, ainda era praticamente o mesmo do ano anterior,
com o mesmo motor Austin, porém, logo surgiram problemas comerciais entre
a DWM e a BMC (British Motor Company), o que levou a substituição
do velho motor pelo do Triumph Herald também de quatro cilindros e 38
CV instalado de trás para frente, ou seja, a ventoinha de arrefecimento
ficava apontada para trás.
A troca de motores não foi assim tão simples, pois o carro teve
de ser quase que inteiramente reformulado. A distância entre eixos de
203cm passou para 218cm, o comprimento total que era de 411cm passou para 434cm.
O carro além ficar maior, ganhou formas mais arredondadas, grandes garras
tubulares nos pára-choques traseiros que serviam de cortadores aos fluxos
de água das hélices. Isso evitava que a água entrasse pelas
grades de arrefecimento da tampa traseira e fosse posteriormente sugada pelo
carburador, ou molhasse o cabeçote do motor que já quente sofreria
um choque térmico e provavelmente trincaria.
Aventuras e marketing
Com o Amphicar ainda engatinhando no mercado e visto como um carro de confiabilidade
duvidosa, a DWM resolveu investir na promoção do novo carro que
já contava com outdoors, propagandas em revistas (já eram usadas
há muito tempo). A empresa então tinha de pensar em algo grande
que mostrasse todas as qualidades do “carrinho” repercutindo no
mundo todo. A resposta encontrada foi algo único: uma travessia marítima
com um Amphicar do Reino Unido à França.
Um fato inusitado que deixou muita gente com dúvidas do sucesso da aventura,
porém para espanto dos mais céticos, o Amphicar não teve
dificuldades para atravessar o Canal da Mancha, não apresentando problema
algum. Foi a consagração do anfíbio, porém um marketing
tão barato e eficiente como esse não poderia cair no esquecimento.
Três anos depois outros dois Amphicars realizaram a mesma proeza, partindo
de Dover, na Inglaterra até Calais, na França. No frio do mês
de abril, às 8 horas da manhã iniciou-se esta grande aventura,
os carros foram bem equipados desta vez, seu “kit de viagem” incluía,
botes infláveis, rádio transmissor, sinalizadores e várias
latas de combustível extra. Ao saírem do porto o mar estava calmo,
porém as lanchas de observadores e até mesmo da imprensa que acompanhava
o “cardume” começaram a produzir marolas que atrapalharam
um pouco a sua dirigibilidade, porém logo que as mesmas retornaram ao
porto o problema foi sanado. Canal adentro outro problema, as ondas começaram
a se agitar e chegaram a três metros de altura, começando a invadir
o habitáculo do carro. Mas nada de desespero, pois o curioso carro era
equipado com um a pequena bomba de sucção que tirava com eficiência
a pouca água que entrava. A certa altura da viagem, feita numa velocidade
máxima de 20 km/h os carros ficaram sem gasolina e novamente a engenhosidade
falou mais alto. No gargalo do reservatório de combustíveis fora
instalado um prolongamento que permitia o co-piloto reabastecer o carro com
a gasolina estocada nas latas, sem problemas. Na verdade o verdadeiro problema
começaria depois. O mar ficou agitado e um dos Amphicars foi inundado,
a bomba de sucção parou de funcionar trazendo desespero a seus
ocupantes. Mas felizmente a solução encontrada foi inteligente:
simplesmente o outro Amphicar ainda em ordem rebocou o “irmão”
até a praia durante os 48 km de percurso seguintes.
Os carros foram recebidos com festa e muita empolgação. Após
os pilotos secarem seus veículos, partiram para Frankfurt, na Alemanha
onde participaram do Salão do Automóvel, garantindo centenas de
negócios com compradores impressionados com a façanha do carrinho,
sendo principalmente os norte americanos.
Outras aventuras como estas foram tentadas e algumas acabaram no fundo do mar.
Certa vez um Amphicar atracado em Marrocos foi destruído por um navio,
mas esses fatos não estragaram em nada a imagem do carro nem a coragem
dos seus tripulantes, que atravessavam grandes volumes de água em um
pequeno barco, ou melhor, automóvel de 4,34 metros.
Apesar de toda a “farra” que envolvia o Amphicar, este nunca foi
um sucesso em vendas. Somente 3700 unidades foram fabricadas entre 1960 e 1968,
pois o carro também tinha defeitos. Seu desenho, que a princípio
parecia harmonioso, com o tempo foi considerado estranho. Os freios à
tambor nas quatro rodas, se traduziam em uma ineficiência só, principalmente
ao sair da água, pois as lonas encharcavam e se tornavam inúteis.
Não sobraram muitos exemplares do Amphicar para contar sua história,
poucos foram ao fundo, porém os que foram utilizados em travessias marítimas
e não tiveram uma correta manutenção sofreram a ação
da água salgada, apodrecendo de ponta a ponta.
Na América do Sul sabemos da existência de dois, um está
no Uruguai em restauração e o outro está em Porto Alegre/RS
e ilustra esta matéria. O carro pertence ao colecionador Ricardo Trein:
é um Amphicar 1966 em estado impecável, todo original, inclusive
o estofamento.
O carro realmente impressiona, tanto pela sua simplicidade como pelo seu estilo.
Depois de meses parado, seu motorzinho Triumph roncou grosso na primeira tentativa
de trazê-lo à vida, o mesmo ocorrendo quando o Sr. Trein comprou
o carro do seu primeiro proprietário, isto há mais de 10 anos.
Ele estava em ótimo estado precisando apenas de retoques na pintura e
pneus novos. Trein conta que o Amphicar sempre esteve no bairro de Ipanema onde
reside, em Porto Alegre. Por muitas vezes viu o carro adentrando as águas
do Rio Guaíba e talvez hoje seja o único exemplar no Brasil que
esteja em condições de rodar ou navegar.
Paixão pelo Anfíbio
Na Europa e EUA, existem vários clubes de colecionadores e admiradores
do Amphicar, sendo que estes realizam anualmente dezenas de rallyes aquáticos
com seus queridos carros anfíbios, muitas vezes arriscando até
mesmo a vida em fortes corredeiras de rios e oceanos revoltos. Porém
vale tudo para os poucos privilegiados que podem se dar ao luxo de sair da estrada
e cair na água com carro e tudo.
Atos
Rodrigo Fagundes - Classic Show Magazine

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