AMPHICAR

Quando se fala em carros anfíbios logo vem à cabeça uma imagem de rústicos veículos militares atravessando rios e pântanos, levando à bordo um pequeno contingente militar. Pois alheio a esta imagem um dia foi criado um carro anfíbio urbano com direito até a rabo-de-peixe: O Amphicar.
Da cabeça do engenheiro alemão Hans Trippel nasceu a idéia de criar um automóvel anfíbio, porém com várias características de um carro comum de passeio. Essa idéia se tornou realidade no Salão do Automóvel de Genebra em 1959 quando Hans exibiu à milhares de pessoas o seu protótipo, chamado Eurocar Aligator. Trippel não era marinheiro de primeira viagem na história do carro anfíbio, pois ele mesmo já tinha desenvolvido vários carros dessa natureza prestando seus serviços ao império nazista durante a 2ª Guerra Mundial, o que lhe deu experiência o bastante para investir no seu “anfíbio urbano”.
Sob uma visão geral, este era um conversível com carroceria em monobloco e capacidade para 2 passageiros, não muito diferente de outros carros pequenos da época, contando inclusive com um pequeno “rabo-de-peixe”, que dada a utilização do carro veio bem a calhar. O motor era originário dos Austin A35, acoplado atrás do eixo traseiro, bem abrigado de qualquer suposta infiltração. O câmbio era da marca Hermes com quatro marchas, especialmente projetado para o carro, que contava com um conjunto de engrenagens auxiliares que davam a tração necessária para o funcionamento das hélices localizadas na traseira do automóvel. E falando em hélices, essas ficavam bem à mostra quando o anfíbio estava fora da água, porém o perigo de uma “enroscada” era amenizado com a altura do carro em relação ao solo, situação muito parecida com a do anfíbio militar Schwimmwagen, derivado do KDF Wagen, ou seja, o futuro Fusca.

Na água
O Aligator não tinha um leme propriamente dito, as rodas dianteiras faziam esse papel, porém dado ao esterçamento limitado, as curvas dentro da água deveriam ser bem planejadas, em um local com pouco espaço manobras à ré se faziam necessárias. As rodas traseiras, em contrapartida, serviam de quilhas, e ambas as rodas com seus respectivos pneus serviam de flutuadores, dando equilíbrio ao carro. Para tal, os pneus precisavam estar calibrados com alta pressão.
Para entrar na água o Aligátor não poderia simplesmente saltar de uma encosta, por se tratar de um veículo urbano, seus trejeitos eram um tanto mais civilizados, para tal manobra precisava de uma rampa com uma leve inclinação. Ao tocar o rodado dianteiro na água, seus ocupantes tinham a nítida impressão de que o pobre carro iria afundar como uma pedra, porém conforme se impunha, a dianteira levantava e o anfíbio boiava como um bote. E falando em barco, após estar totalmente na água, o condutor, ao invés de motorista se transformava em um autêntico marinheiro acionando as hélices em uma pequena alavanca localizada entre os bancos ao mesmo tempo em que desligava a tração das rodas do carro, inúteis nessa hora, não desperdiçando combustível.
O Amphicar
Em 1960, ano seguinte à fabricação do primeiro protótipo, o Aligator passou a ser fabricado pela DWM da Alemanha, um grupo empresarial formado por capital alemão e norte americano. O Anfíbio foi então rebatizado de Amphicar e apresentado nos EUA na Exposição Internacional de Nova York.
O carro, agora com novo nome, ainda era praticamente o mesmo do ano anterior, com o mesmo motor Austin, porém, logo surgiram problemas comerciais entre a DWM e a BMC (British Motor Company), o que levou a substituição do velho motor pelo do Triumph Herald também de quatro cilindros e 38 CV instalado de trás para frente, ou seja, a ventoinha de arrefecimento ficava apontada para trás.
A troca de motores não foi assim tão simples, pois o carro teve de ser quase que inteiramente reformulado. A distância entre eixos de 203cm passou para 218cm, o comprimento total que era de 411cm passou para 434cm. O carro além ficar maior, ganhou formas mais arredondadas, grandes garras tubulares nos pára-choques traseiros que serviam de cortadores aos fluxos de água das hélices. Isso evitava que a água entrasse pelas grades de arrefecimento da tampa traseira e fosse posteriormente sugada pelo carburador, ou molhasse o cabeçote do motor que já quente sofreria um choque térmico e provavelmente trincaria.
Aventuras e marketing
Com o Amphicar ainda engatinhando no mercado e visto como um carro de confiabilidade duvidosa, a DWM resolveu investir na promoção do novo carro que já contava com outdoors, propagandas em revistas (já eram usadas há muito tempo). A empresa então tinha de pensar em algo grande que mostrasse todas as qualidades do “carrinho” repercutindo no mundo todo. A resposta encontrada foi algo único: uma travessia marítima com um Amphicar do Reino Unido à França.
Um fato inusitado que deixou muita gente com dúvidas do sucesso da aventura, porém para espanto dos mais céticos, o Amphicar não teve dificuldades para atravessar o Canal da Mancha, não apresentando problema algum. Foi a consagração do anfíbio, porém um marketing tão barato e eficiente como esse não poderia cair no esquecimento.
Três anos depois outros dois Amphicars realizaram a mesma proeza, partindo de Dover, na Inglaterra até Calais, na França. No frio do mês de abril, às 8 horas da manhã iniciou-se esta grande aventura, os carros foram bem equipados desta vez, seu “kit de viagem” incluía, botes infláveis, rádio transmissor, sinalizadores e várias latas de combustível extra. Ao saírem do porto o mar estava calmo, porém as lanchas de observadores e até mesmo da imprensa que acompanhava o “cardume” começaram a produzir marolas que atrapalharam um pouco a sua dirigibilidade, porém logo que as mesmas retornaram ao porto o problema foi sanado. Canal adentro outro problema, as ondas começaram a se agitar e chegaram a três metros de altura, começando a invadir o habitáculo do carro. Mas nada de desespero, pois o curioso carro era equipado com um a pequena bomba de sucção que tirava com eficiência a pouca água que entrava. A certa altura da viagem, feita numa velocidade máxima de 20 km/h os carros ficaram sem gasolina e novamente a engenhosidade falou mais alto. No gargalo do reservatório de combustíveis fora instalado um prolongamento que permitia o co-piloto reabastecer o carro com a gasolina estocada nas latas, sem problemas. Na verdade o verdadeiro problema começaria depois. O mar ficou agitado e um dos Amphicars foi inundado, a bomba de sucção parou de funcionar trazendo desespero a seus ocupantes. Mas felizmente a solução encontrada foi inteligente: simplesmente o outro Amphicar ainda em ordem rebocou o “irmão” até a praia durante os 48 km de percurso seguintes.
Os carros foram recebidos com festa e muita empolgação. Após os pilotos secarem seus veículos, partiram para Frankfurt, na Alemanha onde participaram do Salão do Automóvel, garantindo centenas de negócios com compradores impressionados com a façanha do carrinho, sendo principalmente os norte americanos.
Outras aventuras como estas foram tentadas e algumas acabaram no fundo do mar. Certa vez um Amphicar atracado em Marrocos foi destruído por um navio, mas esses fatos não estragaram em nada a imagem do carro nem a coragem dos seus tripulantes, que atravessavam grandes volumes de água em um pequeno barco, ou melhor, automóvel de 4,34 metros.
Apesar de toda a “farra” que envolvia o Amphicar, este nunca foi um sucesso em vendas. Somente 3700 unidades foram fabricadas entre 1960 e 1968, pois o carro também tinha defeitos. Seu desenho, que a princípio parecia harmonioso, com o tempo foi considerado estranho. Os freios à tambor nas quatro rodas, se traduziam em uma ineficiência só, principalmente ao sair da água, pois as lonas encharcavam e se tornavam inúteis. Não sobraram muitos exemplares do Amphicar para contar sua história, poucos foram ao fundo, porém os que foram utilizados em travessias marítimas e não tiveram uma correta manutenção sofreram a ação da água salgada, apodrecendo de ponta a ponta.
Na América do Sul sabemos da existência de dois, um está no Uruguai em restauração e o outro está em Porto Alegre/RS e ilustra esta matéria. O carro pertence ao colecionador Ricardo Trein: é um Amphicar 1966 em estado impecável, todo original, inclusive o estofamento.
O carro realmente impressiona, tanto pela sua simplicidade como pelo seu estilo. Depois de meses parado, seu motorzinho Triumph roncou grosso na primeira tentativa de trazê-lo à vida, o mesmo ocorrendo quando o Sr. Trein comprou o carro do seu primeiro proprietário, isto há mais de 10 anos. Ele estava em ótimo estado precisando apenas de retoques na pintura e pneus novos. Trein conta que o Amphicar sempre esteve no bairro de Ipanema onde reside, em Porto Alegre. Por muitas vezes viu o carro adentrando as águas do Rio Guaíba e talvez hoje seja o único exemplar no Brasil que esteja em condições de rodar ou navegar.
Paixão pelo Anfíbio
Na Europa e EUA, existem vários clubes de colecionadores e admiradores do Amphicar, sendo que estes realizam anualmente dezenas de rallyes aquáticos com seus queridos carros anfíbios, muitas vezes arriscando até mesmo a vida em fortes corredeiras de rios e oceanos revoltos. Porém vale tudo para os poucos privilegiados que podem se dar ao luxo de sair da estrada e cair na água com carro e tudo.

Atos Rodrigo Fagundes - Classic Show Magazine



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