Conta
a estória que Jepeto, um experiente fabricante de brinquedos, certa vez
criou um boneco de madeira articulado e seu amor pelo boneco foi tal que acabou
por
criar vida. Mas Jepeto sequer imaginava que, no interior do estado do Rio Grande
do Sul, iria encontrar um experiente artesão que também deu vida
a um sonho: o sonho de ter um automóvel.
Essa dica foi dada por nossos colaboradores Oscar e Pedro Pacheco, de Porto
Alegre e Igrejinha/RS respectivamente. Na verdade foi Pedro quem vasculhou a
cidade em busca do lendário carro, do qual já tinha ouvido falar
há muito tempo, porém nunca tinha encontrado.
Albano Weber, esse é o nome do esmerado artesão que deu vida ao
curioso carro
de madeira. Muito simpático e lúcido, Albano conta hoje com 87
anos muito bem vividos e gostou de nos contar a sua interessante história.
Nascido na cidade de Campo Bom/RS, Albano mudou-se para a cidade de Igrejinha
em 1946. Naquela época já se consagrava como um marceneiro de
mão cheia, pois experiência é o que não faltava,
havia trabalhado em marcenaria, carpintaria e em ferrarias até em Santa
Catarina, sendo que em 1950 abriu seu próprio estabelecimento. Naqueles
tempos mais remotos onde a energia elétrica era quase inexistente, Albano
usava um motor à diesel com partida à lamparina para tocar o maquinário.
A vida era muito dura e difícil e Igrejinha era apenas um distrito da
pequena cidade de Taquara. Quase não existiam carros, apenas três,
sendo que um deles era táxi em Igreginha, por isso quase nem passava
pela cabeça de Albano comprar um automóvel. Mas um dia ao folhar
a sua leitura preferida, Seleções, ele encontrou o anúncio
de um automóvel que chamou sua atenção. Esse carro era
um Ford Taunus alemão, um pequeno carro muito semelhante ao Ford Cônsul
(ver box).
Na época a situação de Albano não permitia comprar
um carro, na verdade era um sonho distante, porém, a vontade de possuir
um automóvel daqueles falou mais alto e, acreditem, ele resolveu construir
um carro. Em 1953 o Sr. Albano deu início ao seu projeto, porém
ele só tinha como base a parte dianteira do automóvel já
que o anúncio mostrava o carro de frente. O jeito então foi criar,
e para evitar complexidades optou por fazer ao invés de um sedan 4 portas,
um conversível 2 portas. O material escolhido para a confecção
foi a madeira de Cabreúva, sendo que até mesmo a armação
da capota foi feita em madeira e cheia de detalhes. Albano era um visionário,
pois apesar de seu pouco estudo, projetou tudo no carro, inclusive o complexo
sistema de direção que funciona por meio de correntes e coroas
de bicicleta, como desmultiplicador, um sistema que após 45 anos ainda
funciona perfeitamente.
No automóvel tudo é de espantar, a qualidade do trabalho, a riqueza
de detalhes. A suspensão, por exemplo, é independente e de madeira,
é claro, acionada por três molas de ferro helicoidais de estofaria.
O motor. como não se pode fazer de madeira, Albano optou por utilizar
o do Ford Prefect, este comprado usado. A caixa de câmbio foi retirada
de um pequeno Fiat Balila. Já as ponteiras de eixo, mandou fundir em
Sapiranga/RS. Quanto aos vidros e espelhos, conta ele que desenhou seu formato
em um papelão e foi até Porto Alegre em uma casa especializada,
onde os vidros foram cortados de acordo com o formato, ao voltar os vidros se
encaixavam direitinho na armação de madeira.
Como grande entendido em madeira, procurou fazer o trabalho com o melhor material
possível. Para se ter uma idéia o eixo dianteiro e os cubos de
roda foram feitos em madeira de Ipê, as rodas são do tipo “sanduíche”
feitas em dois pedaços como as do Jeep 1942, estas são feitas
em madeira de “Açoita Cavalo” e presas por 6 parafusos, equipadas
com pneus 5” x 16” com bandas de rodagem estilo losango.
A parte dianteira do “Taunus”, bem como os pára-choques,
são feitos em Cabreuva. O revestimento interno é em compensado
naval e este para comprovar sua qualidade ficou submerso em água por
duas semanas. O painel é bem completo, com todos os instrumentos do Ford
Prefect, porém os botões de comando e a direção
são torneados em madeira. A rede elétrica é muito bem feita
e conta com todas as luzes necessárias como, faróis, sinaleiras
freios, além de buzina. O tanque de combustível localiza-se no
interior do porta-malas e o mesmo foi feito em cobre. Nem o macaco foi esquecido!
De uma simplicidade sem igual, Albano projetou a ferramenta que é capaz
de erguer um carro três vezes maior, e ao contrário do que eventualmente
sucede com os modernos macacos de hoje em dia, este nunca cedeu.
Após três anos de trabalho, em 1956 o carro ficou pronto e, já
em 1958, teve início sua agitada vida de artista. Participou de sua primeira
aparição pública, que foi em uma festa no Barracão
Evangélico da cidade de Taquara. Em seguida em 1960 ficou exposto no
Club Comercial desta mesma cidade. Em 1962 foi convidado a participar de uma
feira agropecuária em Porto Alegre e em 1969 chegou a participar de um
programa na TV Gaúcha. A última vez que foi visto em público
foi no desfile da Octoberfest de Igrejinha em 1987, quando um desastre ocorreu,
durante o desfile uma biela se soltou e quebrou o bloco do motor, o pobre carro
voltou rebocado para casa de onde nunca mais saiu.
Hoje o telhado da garagem que abriga o automóvel está velho a
ponto de desabar e a umidade há muito já se instalou. Albano sobrevive
de pequenos serviços, já que não possui aposentadoria e,
seu maior sonho é de ver o carro com o motor recuperado e exposto em
algum lugar onde o público possa apreciá-lo.
Consideramos que este automóvel é um verdadeiro achado e faz parte
da história do automóvel gaúcho. Algo assim não
pode se perder, pois este pioneiro não poupou esforços para ter
seu próprio automóvel em uma época que ter um carro era
privilégio de poucos. Infelizmente hoje em dia, além de tão
ter dinheiro para manter e reformar o carro Albano está pensando com
muita dor no coração em se desfazer do automóvel para ter
uma velhice um pouco mais tranqüila com o dinheiro que apurar com sua venda.
É uma pena que dois grandes companheiros tenham de se separar, mas como
a “esperança é a última que morre”, quem sabe,
como na história de Pinóquio e Jepeto, não aparecerá
uma fada madrinha?!
Classic
Show Magazine
Colaboração: Pedro Pacheco, Oscar Luiz Pacheco
e Luiz Fernando de Sait Pierre
Quem quiser mais informações sobre o carro de madeira, bem com
intenções de exposição ou compra, deverá
ligar para Classic Show Magazine pelo fone (0xx55)3332-2900 ou e-mail: classicshow@terra.com.br
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